#ESCRITOS: Hoje não tem luar

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Por Luiza Cachoeira

Foi numa tarde muito quente, no início do verão. A Juh e eu pegamos as cadeiras de plástico e fomos nos sentar à sombra das amendoeiras, na frente da casa. Nós adorávamos nos sentar ali, comendo biscoitos, lembrando do dia anterior, das pessoas que tínhamos conhecido, do que elas disseram ou fizeram. Ficávamos observando os transeuntes, porque, naquele horário, a avenida estava movimentada com gente indo e vindo da praia.
Naquele dia, pela manhã, eu fui até a casa que seus pais tinham alugado para passarem o verão, na rua atrás da minha. O plano era irmos à praia, mas depois ficamos com preguiça. Por isso estávamos de biquínis, descalças, comendo pipocas e colocando apelidos em todos que passavam por ali.
Eu não era muito boa nisso, porque não conseguia ver longe o bastante para observar alguma característica nos rostos ou nos cabelos. A menos que fosse grande. Sempre usei óculos, e antes de conhecer as lentes de contato eu saia a noite com as minhas amigas sem enxergar nada além de cores e contornos. Por essa razão, aqueles que não eram muito próximos de mim me achavam metida, afinal, eu não cumprimentava ninguém que não viesse me cumprimentar. Desde o ano passado isso mudou. Agora eu sou popular, e falo até com quem não conheço. Mas continuo a ter uma visão limitada, acho que é psicológico.
Juh deu um pulo e começou a gritar uns meninos que passavam em direção à praia, na calçada do outro lado. Eu não consegui entender o nome direito, nem reconheci seus rostos, mas isso não era novidade. Um deles virou e olhou em nossa direção. Ele era magro, moreno e alto. Tinha cabelos lisos cortados um pouco curtos. Só o que eu consegui discernir àquela distância.
– Quem é, Juh?
Ela já estava chamando o garoto, que vinha em nossa direção, com o amigo branquelo e baixinho logo atrás.
– É o Miller, conheci no ano passado e não sabia que ele tinha voltado nesse verão. É um gatinho, eu tava doida pra te apresentar a ele!!
Juliana é a pessoa mais empolgada que eu conheço. Depois venho eu, na fila. A gente se mata de vergonha.
– Como é o nome? Mile? Isso nome de garoto?!
– Não, é Miller.
– Mile?
– Miiiilleeeerrrr
– Ah, com R no final?
– Oi, Miiiller!! Chegou quando?
Ela já estava a uns três metros abraçando o garoto. Eu não achei ele tão bonito assim. Tinha sobrancelhas enormes, quase unidas. Não sei como não as vi do outro lado da rua. Nariz bonito, boca grande, bonita, cabelo legal. Legal, ele. Bonitinho, na minha classificação.
Ela nos apresentou e eu nem cheguei a conversar, ele apresentou o amigo dele a nós duas e foram embora, à praia.
– E aí, achou o quê?
– Mais ou menos.
– Nossa, ele é muito bonito. No ano passado quis ficar comigo, mas não deu certo. Acho que ele é a sua cara.

Pensei: Como assim?! Mas só disse:
– Acho que ele combina com a Tininha. Vamos sair hoje e apresentar os dois, e talvez eu encontre o Felipe à noite… Quem sabe?
– Vai ter Ilha hoje, você vai?
– Não, você sabe que o meu pai surta com a Ilha. Não tô a fim de comprar essa briga. Além disso, hoje é quarta-feira, vou só olhar o movimento e volto cedo, deixa pro final de semana.
Nem perguntei se ela iria. O pai da Juh tem uma confiança cega em mim, nascida não sei de onde, e só deixa ela sair comigo. Se ele soubesse…
Naquela noite eu vesti minha saia indiana preferida e usei minhas milhares de pulseiras de bronze trançadas com quartzo rosa e outras pedras que não sei o nome. Calcei a sandália de couro cru que estava quase rasgada de tão velha. Eu a comprei num brechó no verão anterior e usei durante todo o ano para ir à escola.
Peguei o dinheiro, pus na bolsa de crochê bordada com continhas coloridas e saí, dando um beijo na minha mãe e um tchau pro meu pai.
– Não volta tarde, e toma cuidado.
– Tá.
Quando cheguei na Juh ela ainda estava saindo do banho. Me preparei pra uma hora de espera, no mínimo. O que era muito se você considerar que a maquiagem se resumia a lápis, rímel e gloss. Juh e eu não poderíamos ter estilos mais diferentes. Ela se vestia como uma patricinha e eu, como uma hippie. Estava sempre de saltos altos ou com uma sandália cheia de strass, e eu com um chinelo de couro ou havaianas. Ela sempre usava maquiagem, e eu só perfume e um óleo de banho que a minha mãe ganhou no Natal.
Juh tinha um monte de roupas novas que a mãe dela comprava antes do verão. Dezenas de shorts jeans, saias de tecido fino, blusas e vestidos.
Eu não ligava muito pra roupas e sapatos, e a minha mãe, muito menos. Nós nunca saímos pra comprar nada juntas, ela apenas me dava o dinheiro e eu podia usar o que eu quisesse. Isso significava ir até um brechó de roupas indianas, escolher umas três saias e uns dois vestidos, depois ir até a única loja do Shopping na qual eu entrava pra comprar camisetas, umas três. E ponto.
O que eu mais gostava de comprar eram pulseiras e brincos de bronze nas barraquinhas que os hippies montavam na praça, no verão.
A praça era mesmo enorme, que se estendia por várias quadras, desde a rodoviária, até a praia, cercada por restaurantes, bares, boutiques, farmácias, supermercados, bancos. A vida daquela pequena cidade de veraneio se resumia àquela praça. No meio de uma das quadras, mais próximo à praia, havia uma igrejinha com um coreto e uma miniatura da estátua do Cristo Redentor. Nós costumávamos nos sentar nos degraus aos seus pés e ficar conversando a noite inteira, alguns com latas de cerveja e copos descartáveis cheios de coquetéis com vodca, outros com refrigerante.
Mais adiante, subindo, haviam diversos traillers de comida misturados a uma mini feira hippie, com uma profusão de barracas desmontáveis repletas de bijuterias, pedras, camisas de bandas, cd’s, bibelôs e brinquedos.
E eu conhecia cada centímetro quadrado daquele lugar. Todos os verões da minha vida tinham sido passados ali, eu corri, pedalei e patinei por cada uma daquelas calçadas e pedras. Era uma moradora permanente, três meses por ano. A melhor parte era a liberdade. Aquela era uma cidade pequena, e eu podia sair sozinha para quase todos os lugares.
Quando a Juh terminou de decidir se a sandália combinava com o batom, saímos caminhando em direção ao coração da cidade.
É engraçado como algumas coisas mudam dentro da gente de uma hora para outra.

Eu já havia falado com a Tininha sobre o Miller, e ela estava muito animada com a idéia porque já o conhecia. Mas quando o vi naquela noite, ao lado do Cristo, conversando todo animado e lindo de morrer naqueles All Stars brancos encardidos, de bermuda verde e camisa do Slipknot, me arrependi. Ele também me viu, e parecia não conseguir desviar os olhos.
Eu nunca havia me achado bonita, até aquela noite. O modo como ele me olhava me deixou vermelha e eu não sabia se ia falar com ele, se ficava ali, parada, ou se fingia que não tinha visto. Mas ele virou para falar com alguém e eu segui a Juh até um banco onde estavam os nossos amigos.
Eu estava tensa, parecia que tinha milhões de borboletas no estômago, e não conseguia me sentir a vontade de jeito nenhum. Chamei a Juh pra dar uma volta pela feira hippie, só pra relaxar um pouquinho, olhar as coisas e me sentir mais normal, mas na segunda volta demos de cara com o Miller e o Marcos caminhando em nossa direção.
– Maria, e aí vamos pra Ilha mais tarde?
– Não, Marquinhos, hoje eu não estou muito legal, vou voltar cedo pra casa – Eu já não queria ir, ainda mais depois daquelas borboletas…
– Ah, eu não acredito que você não vai – Miller tinha uma voz grave e um sotaque delicioso, e fez um beicinho.

Eu é que não acredito que ele fez beicinho!!
– Tô cansada, hoje não vai dar. Nem compramos ingressos.
– A gente também não, estamos indo comprar agora.
– A Tininha vai estar lá. Disse que queria te ver hoje. – Por que eu disse isso?
– Já nos encontramos. – ele falou sem nenhuma animação.
– Hum… Acho que ela tá a fim de você. – eu surtei, definitivamente. Pra minha sorte, a Juh e o Marcos tinham se afastado pra falar com outras pessoas, então nós estávamos sozinhos e não puderam me ouvir contar para um estranho que a minha amiga estava a fim dele.
– Mas não vai dar, porque eu tô a fim de uma amiga dela.
– Oh, me desculpe. Não sei porque eu falei isso pra você. Pra dizer a verdade ela nem me contou nada, eu é que pensei no quanto vocês combinavam e comentei com ela, e ela me disse que te achava bonito, e… – Ai, meu Deus!! Me tira daqui. Eu comecei a gaguejar e a falar tudo o que me vinha na cabeça e nada estava fazendo muito sentido.
– Ele riu. – Tá de boa. Eu entendi. Mas eu tô a fim de beijar a amiga da Tininha, então…
– Esquece, eu sou meio maluca mesmo. – dei um sorriso meio amarelo. – Vou ali pegar um refrigerante.
– Espera, vou com você. – Ele pegou a minha mão e me puxou.
Suas mãos eram quentes e ásperas, gostosas de segurar. Ele estava dando em cima de mim? E se a Tininha visse? Soltei sua mão e mexi em meus cabelos pra disfarçar. Ele me olhou por cima do ombro e riu.
Que sorriso lindo. Ele me ofuscou, nunca tinha visto tanto charme numa pessoa só. Ele pegou na minha mão novamente e me puxou para uma rua estreita que dava para outra praça, que chamávamos de pracinha redonda.
– Por que estamos vindo por aqui?
– Porque ali tem um bar onde eles lavam as latinhas e as coca-colas são muito geladas. – Achei estranho, mas havia muitas pessoas passando, então não me preocupei muito.
Compramos nossas latinhas e ele pediu ao dono do bar uns guardanapos, limpou as latas e me entregou. Eu nunca tinha me preocupado muito com isso, mas cada um com a sua mania.
– Acho melhor a gente voltar, nem falei pra Juh que estava saindo.
– A sua amiga não estava muito a fim de mim.
Olhei pro lado e vi a Tininha do outro lado da praça em forma de círculo beijando um garoto que não reconheci. Fiquei muito sem graça, não pelo fato de ela estar com outro na frente dele, mas pela cena do beijo ter sido vista por nós dois juntos, quando está rolando algum clima muito estranho desde que nos vimos.
Não tive coragem de olhar pra cima porque sabia que ele estava me olhando.
– Posso te dar um beijo, Maria?
O jeito como ele falou meu nome… Eu nunca vou esquecer.
Antes que eu pudesse pensar, disse:

– Não. Você vai voltar agora ou vai ficar aqui? – Acho que foi pela pergunta inesperada, mas eu queria que ele me beijasse sim. Por que eu disse que não?! Agora ele nunca mais ia falar comigo, ou querer me beijar. Fui tão grossa!
Nem esperei pela resposta e comecei a andar na frente. Escutei ele rindo atrás de mim.
– Caramba! Que garota é essa? – Ele segurou a minha mão e continuou rindo baixinho.
Quando nós chegamos à praça principal a Juh e os outros estavam na creperia, e as pessoas começavam a descer em direção às ruas que davam acesso ao cais.
Marcos chamou o Miller, todos iam para a Ilha.
– Você não vem mesmo?
– Não, vou ficar por aqui um pouco.
– A gente se vê na praia amanhã?
– Acho que não, eu vou cedo. Mas, quem sabe?
Ele me deu outro sorriso de deixar a luz do poste completamente obsoleta e me beijou no rosto. Eu quase fechei meus olhos.
Porque não o deixei me beijar, se eu queria tanto? E se ele ficasse com outra garota na Ilha? E se não quisesse me ver na praia amanhã?
Eu queria muito saber como seria aquele beijo, sentir o cheiro dele, ele era tão alto. Pelo menos para mim, que sou baixinha.
Juh tinha esquecido as chaves de casa no bolso do primo dela, e ele estava no cais indo para a Ilha. Corremos para lá tentando encontrá-lo, mas dei de cara com Miller.
– Ei! Você decidiu ir? – Mais um sorriso. Acho que vou ter danos permanentes.
Expliquei sobre as chaves e ele fez uma carinha de decepcionado tão linda que eu não resisti.
– Você ainda quer aquele beijo? – perguntei baixinho.
Ele me olhou com olhos brilhantes, sorriso pequeno, expressão indecifrável. Pensei que não tivesse ouvido. Mas ele se aproximou, pôs uma mão em meu rosto tão delicadamente que ela sequer pareceu áspera. Com a outra mão segurou meu pescoço, virando minha cabeça para cima, e me puxou em direção à sua boca.
Ela era quente, mas o hálito era de menta misturada a morango. Foi um beijo diferente, suave, cálido, com o gosto que têm as coisas inesquecíveis.
Eu não fazia a menor idéia de que naquele momento, aos dezesseis anos, eu tinha acabado de me apaixonar pela primeira vez.

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