Dia do Bibliotecário

333

Hello, Lady and Gentleman.

Prazer estar aqui, nós três. Eu, você e eu.

Enquanto isso, na minha mente saudosista: Nesse dia 12 de março – dia do bibliotecário – voltei aos meus 13 anos. Lembrei de coisas que há muito não pensava. Vamos mexer na minha caixinha de Pandora e reviver?

Conversando com meu amigo Adilson, lembrei da minha querida e inesquecível professora Ivone.
Formada em história e lecionando há anos no tradicional colégio EEB Getúlio Vargas, a Dona Ivone – como todo mundo chamava – resolveu “tapar um buraco” na grade escolar. De professora, começou a atacar como bibliotecária.
Eu estava no alto dos meus doze anos, quase fazendo treze. O bichinho da leitura já havia me mordiscado as orelhas. Porém, a escola não incentivava muito tal hábito. Tantos deveres de casa, provas, testes, notas, metas a bater. Quem tinha tempo para ler um bom romance? Eu não!
A notícia de que a D. Ivone não ia mais dar aulas veio como um caos. Eu que acompanhava – mesmo quando não estava na classe dela – seus eventos em forma de lição, fiquei desacorçoada. Mas a doce velhinha me chamou no segundo dia de aula na sala dos professores e disse:

“Vou esperar tua visita, Evelyn. Eu sei que você tem notas e cargas horárias de estudos exaustivas para cumprir. Mas um bom papo você não pode me negar.”

De fato, conversávamos muito. Apesar de estar bem próxima dos 70, dona Ivone não pensava em aposentar-se. Não só da escola, mas também da juventude. Era daquele tipo de velhinha engraçada, que a gente se apega, conta tudo, chora no ombro e depois ri de ter chorado, para na sequência chorar tudo de novo. Uma vovó “sacudida”, antenada e dotada de um humor fabuloso.
Depois de uma semana do convite, fui vê-la.

Dia do Bibliotecário

Sempre gostei de biblioteca. Estar entre os livros me encanta desde sempre. Porém a casa dos livros no GV era um lugar pouco iluminado, com uma fina camada de poeira perene sobre os exemplares, um certo ar soturno, que dava na gente uma leve vontade de sair correndo.
Todavia, naquele dia, ao chegar na biblioteca tomei um susto! As janelas, que eu jurava não ser possível abrir, estavam escancaradas. O sol tomava todo o lugar. Uma bagunça incrível nas prateleiras. Livros espalhados, em pilhas mal equilibradas, mas com alguma coerência que eu desconhecia. A bibliotecária, pasmem, no chão! Óculos na ponta do nariz, examinando os títulos, capas, lombadas, etc…
Sem pensar duas vezes, sentei-me ao seu lado, indagando o que era aquela revolução literária. Ela apenas riu, os olhos brilhavam de cumplicidade e disse

“Ainda bem que você chegou!”.

As pilhas estavam sendo separadas não por autores, como antes. Separava por gênero, afirmou. Sua explicação, jamais irei esquecer.

“Ninguém procura, assim, de primeira, um autor por prazer. Deixa-me explicar. Quando você pega um Machado de Assis, você não lê por que é um Machado de Assis. Você lê porque é sobre um gênero que te interessa. Um romance, uma história antiga, curiosidade pelos costumes da época… O autor fica em segundo plano, num segundo livro. Aqui, no primeiro livro, a gente capta o leitor, faz ele se apaixonar. Aí sim, depois disso tudo – alisou o livro ao lado -, a gente brinca de ler a vida do escritor. Vamos deixar as pessoas se apaixonaram pela história primeiro.”

E assim fizemos: Minha amiga e eu arrumamos os exemplares por gênero. Nunca vi Drummond de Andrade tão perto de Gregório de Matos. Pedro Bandeira bem próximo do Stephen King. Todos em plena harmonia. E os resultados vieram. Primeiras paixões surgiram, muitas viraram amor, algumas, um beijo de verão. Mas tudo graças a uma ideia simples de uma professora de história.
Apaixonar-se à primeira vista.
Minha amiga e eu aprontamos muito. Quebramos algumas regras – por exemplo: a escola tinha como norma pegar um livro por semana. Não mais do que isso. Tudo muito bem declarado na caderneta da biblioteca. Porém eu lia 2, 3 livros por semana. Quantas vezes burlamos essa regra? Incontáveis vezes.
E pular a frente dos outros a fila de espera dos livros? Harry Potter, então… Muitas!
Lembro com sorriso dos nossos pequenos delitos. Contudo, lembro com lágrimas nos olhos daquela mulher miúda, com as faces enrugadas, voz tranquila, que me ensinou com doçura uma grande lição:

Os livros são incríveis, mas a casa deles é um pedaço do paraíso.

Feliz dia do bibliotecário.

Imagem-Fonte: Google.

Anúncios

2 comentários

  1. Kleber H. Sato · março 13, 2015

    Parabéns a todos os bibliotecários pelo dia deles e pela importância como fomentadores de cultura e conhecimento no país. Assim como os professores, eles deveriam ter mais reconhecimento e valorização, tanto pelo governo como pelo povo, tamanha a importância deles na formação cultural e educacional do país.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Érica · março 13, 2015

    Parabéns aos bibliotecários. E parabéns a sua professora Ivone q com seu espirito livre deve ter estimulado muitos alunos a terem o belo hábito da leitura. Tenho uma filha de 8 anos q dispensa qualquer brincadeira por uma boa leitura, com seus poucos anos de vida ela já leu mais livro do q muitos adultos agradeço o incentivo dos padrinhos, da família e da escola q tbm estimula muito os pequeninos sempre disponibilizando livros e gibis.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s