#RESENHA: Vale Tudo

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Hello, Lady and Gentleman.

Prazer estar aqui, nós três. Eu, você e eu.

Então é o fim. Ultima resenha da sequencia #TrêsBiografias

Vamos fechar com chave de outro. Vale Tudo. Tim Maia.

Mas, se você ainda não viu, confere aqui a biografia do Sidney Poitier e da Maysa 

Sobe o som e vamos nessa.

Vale Tudo

O Som e a Fúria de Tim Maia
Subtítulo mais apropriado não há.
Me encontro na mesma situação da resenha anterior – Maysa -. Sou fã desse cara. Gosto da música, da loucura, swingue e personalidade. Então acabo sendo suspeita para tecer qualquer comentário imparcial sobre o Rei da Cornitude.
Com um agravante: sou muito apaixonada pelo biógrafo Nelson Motta. Então se não quiser ler um grande “rasgar de sedas”, pare por aqui.
Dito isso, vamos embarcar na balada black desse som que se confunde com fúria.
Tim Maia - Vale Tudo
Vale Tudo- Som e Fúria de Tim Maia – Nelson Motta
Biografia não se resenha. Biografia se sente. Levando em consideração que o homenageado da vez é um poço profundo de sensações, estamos em casa.
Sebastião Rodrigues Maia. Tião Maia. Mas isso não é nome de artista. Que seja Tim.
Seguindo a regra que os caçulinhas são sempre os piores, as vezes melhores – tal e qual a criatura que vos fala – deu o ar da graça dia 28 de setembro de 1942. E desde então fez do mundo um lugarzinho muito mais animado.
Sempre polêmico, grosseirão, doido de pedra. O Síndico – eleito pelo Jorge Ben e aceito por todos – é um exemplo básico – posso chamar essa força da natureza de básico?- de extremo.
Ele era muito. Ele era tudo. Sempre quis ser muito. Sempre foi tudo. E nada.
O gordinho mais simpático da Tijuca nasceu com estrela. Fato: demorou pra “acontecer”. Porém quando teve seu lugar ao sol, viveu intensamente.
“Em seu primeiro show em teatro, afirmava ter 28 anos, com fôlego de 20 e experiência de 40”
Jornal do Brasil – 22 de novembro de 1971.
Se autodefinia “preto, gordo e cafajeste, formado em cornologia, sofrências e deficiências capilares”. Tinha estilo conquistado pelas vivências. Não tinha 17 anos quando partiu – sem dinheiro, sem lugar certo para morar, sem garantias e muita falta de bom senso – de peito aberto para o sonho americano.
Conheceu a black music. Os sons que lhe batiam na alma. O preconceito. O horror. A prisão. As drogas.
Fora do país se encontrou no mais estilo brasileiro. E ao voltar para solo tupiniquim, veio com tudo.
Seus amigos da época – Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Jorge Ben e outros – no gosto do povo. Contudo, juntando essa rapaziada toda, não dava meio Tim. Na voz, na personalidade… No peso.
Porém quem disse que o Pai do Soul se deu por vencido? Abriu caminho à unha, à musicalidade.
E detonou.
Paro!
Vale Tudo - Som e Fúria de Tim Maia
Vale Tudo – Nelson Motta
Caio de novo no medo do spoiler. Então vamos apenas parafrasear?
Como exímio compositor, tudo era inspiração: para pôster de mulher nua; para bunda de uma empregada em quem ele tinha “olho comprido”. Até pra novela! Produzir era com ele.
Até palavras. Tinha como costume, inventar palavras, dar novos significados. Muitos ficaram imortalizados.
Garrastazu“: lugar para “torrar unzinho” sem ser incomodado pela vigilância militar.
Sinônimo: mocó, esconderijo.
Baurete“: cigarro de maconha. Em um festival em Bauru- SP, na companhia da ilustre Rita Lee, pediu “unzinho” para a plateia. Brincou com o nome do famoso sanduíche “Bauru”. Bauruzinho… Baurete…
Sinônimo: baseado, cannabis.
4-4-6“: aquele que não chega nem a 5. Sujeito meio bobo, cheio de problemas.
Sinônimo: chato, coxinha.
Não posso deixar de citar dois de seus medos curiosos e que me deixaram com riso frouxo.
Pânico de garçom calvo/careca. Oi?
E um medo absurdo de avião.
“Concordo com Tom Jobim: não se pode confiar em algo inventado por um brasileiro, mais pesado que o ar e com motor à explosão”.
Quem sou eu para discordar?
Dono de um humor irreverente, era useiro e vezeiro em fazer chifres na frente das câmeras. Contar piadas de mau tom. Beirando à grosseria. Dava declarações curiosas sem o menor pudor.
“- Pretendo – Comprar uma bunda nova, porquê a atual está rachada”
Questionado sobre projetos novos. 1988
E o gordinho gostava de comer. Lutou contra a balança desde sempre. Para quem pesava mais de 60 kg, aos 12 anos. Chegar aos três dígitos não foi um grande desafio.
Era um efeito sanfona sem fim.
Fica magro – fica gordo. Fica magro – fica gordo.
Sobre um regime muito louco, disse a máxima:
“Fiz uma dieta rigorosa, cortei álcool, gordura e açúcar. Em duas semanas perdi 14 dias.”
Eu ri. Comi um pedaço de chocolate e avancei na leitura.
Todavia, o negócio do dono da Seroma – sua editora musical particular – era cantar.
“É o meu negócio, é onde eu transcendo e vou para outro mundo, é meu trabalho e eu levo a sério.”
Sobre a música.
Junto com a inesquecível Vitória Régia, Sebastião engrandeceu a música nacional com sucessos sequenciais e imortais. Viu Cristina, caiu aos pés do Padre Cícero, curtiu a Festa do Santo Reis, desenvolveu a Terapêutica do Grito e fez quem não segurava crianças, dançar.
Vale Tudo - Tim Maia
Vale Tudo – Som e Fúria de Tim Maia.
Não posso deixar de elogiar o meu querido-inspiração Nelson Motta – já declarei meu amor, e declaro de novo – e confesso que li o livro fantasiando a voz peculiar e carismática desse jornalista metido a compositor. Ou ao contrário?
Em geral, sua obra me bateu fundo. Detalhista. Porém sem aquele “mais mais mais”, não deixou de fora nenhuma idiossincrasia de Tim. Apresentou esse maluquete de forma visceral e deixou, como diz Caetano Veloso, tudo sair ao som de Tim Maia.
Sem mais nada a acrescentar, cito:
“Tim Maia é um dos maiores artistas brasileiros, é uma figura engraçadíssima e é um autêntico Punk.
Ele é o Punk do Funk”
Cazuza.
Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais retorno! Mais tudo.
E mais bauretes!
Porque com esse som furioso, Vale Tudo.
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#RESENHA: Maysa – Só Numa Multidão de Amores

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Hello, Lady and Gentleman.

Prazer estar aqui, nós três. Eu, você e eu.

Continuando a sequência das Resenhas Biográficas, citadas no Post Anterior – Clique e Confira

“De repente tudo se ilumina. Como uma curva na estrada sob os faróis de um carro, a sala se acende. Tudo se ilumina com a presença magnética de uma mulher que se aproxima de mim pedindo desculpas pelo atraso. Sua maneira de me apertar a mão me liberta instantaneamente da inquietação. Só sei que não vai ser fácil escrever sobre ela. Vejo apenas dois olhos diante de mim.”
Fernando Sabino – Jornal do Brasil
Como escrever uma resenha de uma biografia, sendo ?
Recebi “Maysa – Só numa multidão de amores” do meu querido e estimado Adriel pelo correio. Estava finalizando “Uma vida muito além das expectativas” e essa luz em forma de livro adentrou pelas mãos do carteiro.
Um presente de aniversário adiantado.
Na hora fiquei mortificada, aos prantos.
Nascia ali, antes mesmo de sair da caixinha de papelão, apenas no vislumbre da lombada, o pequeno projeto das três biografias em sequência – ainda falta a do inesquecível Tim Maia, como foi citado no post anterior -.
Porém, minha pretensão não me permitiu um olhar coerente sobre isso.
Repito: como resenhar sendo fã?
Sem resposta, me valho das citações, amores profundos e uma boa dose de “tietismo“.
E que comecem os trabalhos:
Maysa Só Numa Multidão de Amores
Maysa – Só Numa Multidão de Amores e Maysa – Quando Fala o Coração.
Maysa- só numa multidão de amores inspirou a série belíssima, exibida pela Rede Globo em 2009Maysa – Quando Fala o Coração -. O programa de televisão não arranhou – sem fugir à regra dos livros serem melhores que as adaptações para TV – um décimo da compilação de Lira Neto.
Abusando sem medo dos fatos obscuros, o autor fez jus à cantora que se baseava em excessos para tentar – sem êxito, ou quase nenhum – se completar.
06 de julho de 1936, em Botafogo/RJ, vem ao mundo Maysa. E, apenas a título de curiosidade, seu peculiar nome vem da junção de Maria Luysa, amiga de infância de Inah, sua mãe.
Peculiaridade será recorrente nessa mulher incrível e de absurdo talento.
Transgressora e sem papas na língua, galgou sucesso na cara, na coragem, voz e olhos. Verdes. Intensos. Indescritíveis.
Casou, foi mãe, separou-se, viveu, desapareceu, ressurgiu. Tudo de forma inacreditável.

“Maysa, você não existe.”

Afirmou Ricardo Galeno. Primeira crítica de Maysa. Assim. A seco. Ela derreteu.

Maysa Monjardim
Maysa – Só Numa Multidão de Amores 
E ela foi julgada, viu? Nossa!
Fato: ela não era nenhuma florzinha. Xingava, reclamava. Tinha a postura sempre muito rígida. Era tachada de arrogante, por seu permanente olhar penetrante, queixo erguido, ficando o olhar na lente. Entretanto, tudo se dava para enfrentar o nervosismo. Além das duas doses de uísque. Sim ela bebia. Muito. Contudo, não inicialmente.

Sucesso, dinheiro, pobreza, ostracismo. Povoada de “se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar“, a rainha da fossa brincava de extremos. Gorda demais. Magra demais. Abstêmica. E fatidicamente embriagada.
Certa vez, perguntaram-lhe sobre a bebida. No alto de sua irreverência sarcástica, disparou:

“- bebo – primeiro porque quero. Depois porque trabalho para pagar o que bebo. Finalmente, porque tenho senso de autocrítica. Muitas vezes reconheço-me insuportável e eu só suporto os insuportáveis bebendo.”

Controle? Nem na TV. Em preto e branco. Mas que traçava o colorido dos ouvidos apaixonados e angustiados.

“Ouvi e vi Maysa cantando na TV. Seu talento e sua voz são coisas que já nem se discutem. Mas seus olhos são qualquer coisa de maravilhoso, refletem toda a beleza e grandiosidade interior que há em Maysa”

Odete Lara – atriz – jornal Última Flora.
E eu concordo com ela.
Vendo seus vídeos, enxergando a melodia que emanava dela, posso afirmar sem susto: eu conheço a dor.
Um fato que me chamou a atenção: certa vez, em meio a tristezas, numa das muitas tentativas de suicídio, foi prestigiar a amiga – e cantora quem era fã declarada – Elizeth Cardoso e afirmou uma de suas frases mais célebres e autodescritivas:

“Meu maior desejo era ser homem, preto, pianista e bêbado. Como vocês sabem, não consegui ser homem, negro nem pianista. Porém ainda tenho um sonho: ser Elizeth Cardoso.”

Quem conseguiria se descrever de forma tão magnifica, precisa e divertida?
Apenas ela. Maysa.

Falar de suas cicatrizes – externas e internas -, de seus incontáveis amores frustrados, erros, projetos falidos, suas falsas promessas de fim de carreira é apenas chover no molhado, uma vez que resenho sobre uma biografia. Essas coisas todas estão implícitas e muito bem estruturadas na obra de Lira Neto. E, para agradecer essa eloquente viagem, cito, solta, uma frase fabulosa do autor, que mesmo fora de contexto, cai como uma luva à cantora de amores frustrados:

“…Contudo, descansar não era um verbo que combinasse com um terremoto em forma de mulher chamado Maysa…”

Porém ela descansou. Um fim de sábado, datando 22 de janeiro de 1977, ironicamente sóbria  – quantas vezes dirigiu bêbada? – Maysa partiu. Deixou apenas sua obra: muito trabalho, porém pouco, para quem realmente sabe ouvir e compreender o insano, o perverso e sobretudo o incompreensível.

Se eu recomendo? Sim ou claro? Decida você.

“Maysa é um símbolo de ressurreição. Fortemente deprimida quando deixou de cantar, não esperava que tivesse força suficiente para refazer sua vida. E eis que surge uma mulher mais do que bonita, e mais forte do que antes. Reconstruiu-se tornando-se a mais palavra em todas. Quem já se ergueu várias vezes das cinzas sabe como é ao mesmo tempo, difícil e impossível, a própria reconstrução”
Clarice Lispector – 1969.

#RESENHA: Uma Vida Muito Além das Expectativas.

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Prazer estar aqui, nós três. Eu, você e eu.

Então. Como já bem sabem, sou a Três é Demais. Fazendo jus ao meu número, dentro do #SeteMentesQueBrotam farei três resenhas sobre biografias. Postadas nas próximas terças-feiras (Hoje e mais duas). Sendo elas: “Uma Vida Muito Além das Expectativas”, “Maysa – Só Numa Multidão de Amores” e “Tim Maia – Vale Tudo.”
Serão comentários e sensações única e exclusivamente minhas. Sujeitas a críticas, comentários e discordâncias.

Tendo fim a lenga lenga.

Primeira Resenha Biográfica.

Por Evelyn Trovão.

Uma vida muito além das expectativas

Sidney Poitier
Se eu precisasse resumir, eu diria que é uma história de altos e baixos.
Fugindo do formato habitual das obras auto biográficas, Poitier escreve cartas para Ayele, sua primeira bisneta.
Doçuras  infinitas que descrevo com auxílio da sinopse.
Uma Vida Muito Além das Expectativas Sidney Poitier
Uma Vida Muito Além das Expectativas – Sidney Poitier
Neste livro, Poitier reflete sobre as questões mais profundas e as passagens mais significativas de sua vida, as virtudes que o ajudaram a superar os momentos mais difíceis e o senso de propósito da história que o fortaleceu. Ele enfatiza a importância do papel da fé em uma era globalizada, assim como a nossa responsabilidade em relação à Terra e às gerações futuras. Em Uma Vida Muito Além das Expectativas, Poitier oferece conselhos inspiradores e histórias pessoais registrados em cartas para sua bisneta. Uma narrativa para todos aqueles que admiram seu exemplo e buscam a sabedoria que somente um homem de vasta experiência pode oferecer.
Levando em conta que o livro passeia solto entre a biografia e um livro de memórias, ele saiu do lugar comum. Uma narração muito próximas, sem muitas frescuras para dizer que não sabe como exatamente aconteceu – bem ao estilo de memória.- Abusando de contextos históricos – bem ao estilo de biografia. – O ator consagrado conseguiu desenhar com lápis de cera grosso os contornos de sua vida. Passagens realmente emocionantes do convívio familiar foram os pontos altos da obra.
Contudo não posso deixar de comentar as partes não tão legais. Os questionamentos profundos – sem dúvidas, relevantes – tomaram proporções exageradas, na minha humilde opinião. Beirando ao chato em algumas cartas.
Cartas. Confesso meu irrevogável e irrefutável amor por elas. Talvez esse formato diferente tenha me feito superestimar o exemplar. Todavia afirmo: 87% do livro é fabuloso. É para quem não é “cri-cri” como eu, chega a unanimidade positiva facilmente.
Os 13% negativos atribuí à repetição de palavras/expressões e as questões filosóficas já citadas.
Entretanto tudo passa em branco, comparado ao colorido amor do Sidney pela Ayele. Quanta fofura, meu Deus. O jeitinho que o genial ator preparou tudo para esperar as experiências da pequena chegarem foi o ponto culminante para minhas lágrimas rolarem.
Tudo muito bem encaixado, carinhoso e feito para alguém que é foco de muito amor. E é assim que deve ser. Pois nós, leitores, pegamos esse rescaldo de sentimento e transformamos em combustível para ler, trazer para vida e passar a diante.
Lutas, superações, uma dose de humor, sublime genialidade. Encontramos nessa obra fantástica e que me fez ver que toda vida é muito além das expectativa. Se a gente quiser.
Uma Vida Muito Além das Expectativas

Dia do Bibliotecário

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Hello, Lady and Gentleman.

Prazer estar aqui, nós três. Eu, você e eu.

Enquanto isso, na minha mente saudosista: Nesse dia 12 de março – dia do bibliotecário – voltei aos meus 13 anos. Lembrei de coisas que há muito não pensava. Vamos mexer na minha caixinha de Pandora e reviver?

Conversando com meu amigo Adilson, lembrei da minha querida e inesquecível professora Ivone.
Formada em história e lecionando há anos no tradicional colégio EEB Getúlio Vargas, a Dona Ivone – como todo mundo chamava – resolveu “tapar um buraco” na grade escolar. De professora, começou a atacar como bibliotecária.
Eu estava no alto dos meus doze anos, quase fazendo treze. O bichinho da leitura já havia me mordiscado as orelhas. Porém, a escola não incentivava muito tal hábito. Tantos deveres de casa, provas, testes, notas, metas a bater. Quem tinha tempo para ler um bom romance? Eu não!
A notícia de que a D. Ivone não ia mais dar aulas veio como um caos. Eu que acompanhava – mesmo quando não estava na classe dela – seus eventos em forma de lição, fiquei desacorçoada. Mas a doce velhinha me chamou no segundo dia de aula na sala dos professores e disse:

“Vou esperar tua visita, Evelyn. Eu sei que você tem notas e cargas horárias de estudos exaustivas para cumprir. Mas um bom papo você não pode me negar.”

De fato, conversávamos muito. Apesar de estar bem próxima dos 70, dona Ivone não pensava em aposentar-se. Não só da escola, mas também da juventude. Era daquele tipo de velhinha engraçada, que a gente se apega, conta tudo, chora no ombro e depois ri de ter chorado, para na sequência chorar tudo de novo. Uma vovó “sacudida”, antenada e dotada de um humor fabuloso.
Depois de uma semana do convite, fui vê-la.

Dia do Bibliotecário

Sempre gostei de biblioteca. Estar entre os livros me encanta desde sempre. Porém a casa dos livros no GV era um lugar pouco iluminado, com uma fina camada de poeira perene sobre os exemplares, um certo ar soturno, que dava na gente uma leve vontade de sair correndo.
Todavia, naquele dia, ao chegar na biblioteca tomei um susto! As janelas, que eu jurava não ser possível abrir, estavam escancaradas. O sol tomava todo o lugar. Uma bagunça incrível nas prateleiras. Livros espalhados, em pilhas mal equilibradas, mas com alguma coerência que eu desconhecia. A bibliotecária, pasmem, no chão! Óculos na ponta do nariz, examinando os títulos, capas, lombadas, etc…
Sem pensar duas vezes, sentei-me ao seu lado, indagando o que era aquela revolução literária. Ela apenas riu, os olhos brilhavam de cumplicidade e disse

“Ainda bem que você chegou!”.

As pilhas estavam sendo separadas não por autores, como antes. Separava por gênero, afirmou. Sua explicação, jamais irei esquecer.

“Ninguém procura, assim, de primeira, um autor por prazer. Deixa-me explicar. Quando você pega um Machado de Assis, você não lê por que é um Machado de Assis. Você lê porque é sobre um gênero que te interessa. Um romance, uma história antiga, curiosidade pelos costumes da época… O autor fica em segundo plano, num segundo livro. Aqui, no primeiro livro, a gente capta o leitor, faz ele se apaixonar. Aí sim, depois disso tudo – alisou o livro ao lado -, a gente brinca de ler a vida do escritor. Vamos deixar as pessoas se apaixonaram pela história primeiro.”

E assim fizemos: Minha amiga e eu arrumamos os exemplares por gênero. Nunca vi Drummond de Andrade tão perto de Gregório de Matos. Pedro Bandeira bem próximo do Stephen King. Todos em plena harmonia. E os resultados vieram. Primeiras paixões surgiram, muitas viraram amor, algumas, um beijo de verão. Mas tudo graças a uma ideia simples de uma professora de história.
Apaixonar-se à primeira vista.
Minha amiga e eu aprontamos muito. Quebramos algumas regras – por exemplo: a escola tinha como norma pegar um livro por semana. Não mais do que isso. Tudo muito bem declarado na caderneta da biblioteca. Porém eu lia 2, 3 livros por semana. Quantas vezes burlamos essa regra? Incontáveis vezes.
E pular a frente dos outros a fila de espera dos livros? Harry Potter, então… Muitas!
Lembro com sorriso dos nossos pequenos delitos. Contudo, lembro com lágrimas nos olhos daquela mulher miúda, com as faces enrugadas, voz tranquila, que me ensinou com doçura uma grande lição:

Os livros são incríveis, mas a casa deles é um pedaço do paraíso.

Feliz dia do bibliotecário.

Imagem-Fonte: Google.

#POETIZE-SE: Saudade

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Por Evelyn Trovão

Corações 07

Tantas musicas já falaram de saudade.

Letras poéticas. Poesias musicadas por gênios de ouvidos absolutos.
Sentimento pré-disposto  à dor. Que todo mundo conhece em conceito.
Condecorado como melhor amigo do amor. Irmão mais velho da dor.
Saudade.
Soa bonito com os lábios próximos.
Entre sorrisos encantados.
Suspiros intermináveis e principalmente quando a reciprocidade impera.
Distância é música.
Lenta, dolorosa…
Então me recomponha.
Saudade palavra triste, quando nos falta o grande amor.
Mas não me importa, querido coração.
Viverei pela luz dos olhos teus, pois eu acho o que se pode achar. Que a luz dos meus olhos esmorecem na tua ausência.
E só assim, quando sentir o amor perto de mim… Outra vez…
Pararei de parafrasear sambas de uma nota só.
E a tristeza terá fim e eu cantarei feliz, chega de saudades.

Inspire-se: Maysa – Hino ao Amor (L’hymne à L’amour)

#POETIZE-SE: Zona neutra – Poesia sem Rima

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Por Evelyn Trovão

Hello, Lady and Gentleman.

Prazer estar aqui, nós três. Eu, você e eu.

Já cansada de mim, procurei inspiração em outros.
Um em específico resolveu me ajudar.
Lendo “Uma Vida Muito Além das Expectativas” me deparo com o paraíso.
O autor – Sidney Poitier – me organiza a bagunça interna ao criar – ou dar um novo significado – a fabulosa expressão “zona neutra”.
Obrigada, negrão.
Tudo que sempre quis.
Um lugar para repousar.
Descansar até do tédio que define um soninho vespertino em um domingo.
Busco às cegas o silêncio confortável, um lugar tranquilo, quase sem cheiro, de preferência, fresco.
Me receba calma, zona neutra.
Me deixe relaxar, sem a pressão insípida dos sentimentos contraditórios.
Afasta do meu lugar comum as lágrimas, o ciúme, a ira.
Faz sumir um pouquinho de mim. No lugar, deixe uma pitada de aceitação.
Zona Neutra, sábia utopia, venha em  ondas suaves beijar meus pés, deixando a pele salpicada de compreensão. Me ensina, eu imploro, a entender que o que não é meu, posso apenas desejar e deixar ir.
Se não for pedir muito, um ultimo desejo? 
Se faça ambiente.
Nada muito grande.
Um pequeno círculo já é suficiente. Mude. Seja neutra, mas seja quente. E podendo escolher, já tenho um destino: zona neutra viva entre sorriso, entre ‘erres’ e sobretudo, entre os braços de um amor amigo.

#POETIZE-SE: Obrigada pelo Adeus

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Por Evelyn Trovão

Me sinto confortável em dizer adeus às lágrima.

Me livrar de cada gota de dor que desampara meu coração.

O fogo que ardia como magma.

Hoje, neste domingo, se faz um grão.

 

Obrigada por tua sinceridade, hombridade.

Agradeço por não ter iludido.

Essa rima, só por curiosidade

Faz algum sentido?

 

A alegria desses exatos três meses, jamais esquecerei.

15 de novembro, te contei o que sentia.

Dias de ternura, para sempre guardarei.

15 de fevereiro, o “você e eu”, sumia.

 

Estou pobre de palavras, meus olhos estão turvos.

Meu coração está pequenino.

Um dia, desse amor eu me curo.

E só restará na minha memória, teu sorriso de menino.

 

Vai ser difícil conviver, fazer de conta que não sinto nada.

Seremos eternos amigos, creia, isso não vai mudar.

Deus me defenda, meu ser vai passar por uma prova danada.

Deus me ajude, preciso urgente desapaixonar.

Inspire-se: https://www.youtube.com/watch?v=cqwdOL-M_gs

Viva a Celulite, Amém!

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Hello, Lady and Gentleman.

Prazer estar aqui, nós três. Eu, você e eu.

Sobre minhas pequenas férias:

Viva a celulite, amém.

Sempre fui muito encanada com essa coisa de não ser perfeita.

Sobretudo após certas gordurinhas, ao longo dos anos, virarem minhas fiéis amigas. Inseparáveis escudeiras que, de modo algum, – nem se eu participar de uma maratona, nadar – ida e volta – até a África e dar uma voltinha de bicicleta até ali em Roma – se separa do cós do meu jeans.

Me retraí, escondi, murchei. As famigeradas bordinhas de catupiry.

Confesso, minha autoestima estava mais baixa que barriga de sapo. Short? Bem pra baixo do joelho, muito a cima do umbigo. Incontáveis batas, camisas soltas, mangas – e aquelas pelanquinhas do tchauzinho? – e tudo G. Okay, GG.

Essa modinha de vestido com cinto, para marcar a silhueta é pra acabar. Sovaquinho suicida, inimigo mortal. Perdi a paciência. Vou entrar na academia.

Antes disso, vou me despedir.

Nada melhor que uma viagem, comer tudo que for possível e imaginável. Caldos mil. Pastéis, McDonald’s. Sem falar nos tais pratos típicos. Engraçado que comida de fora nunca tem rúcula. Ou alface, ou brócolis. Isso é comida de casa. Em outro Estado? Batata frita!!

O pior está por vir. No meio dessa brincadeira, tem uma festa de criança. Brigadeiro. Bolo. Bem-casados. Balas, pirulitos. Tudo! Sério? Um adeus em grande estilo.

Embarquei.

Destino? Rio de Janeiro. Em pleno fevereiro.

Prevendo humilhações. Mulatas popozudas, barriga tanque, coxas de concreto.

Mal pouso em solo carioca, shortinhos curtos pipocam. Com um calor do nível “quem deixou a caldeira aberta, produção?“, nada mais natural. Porém o que me surpreendeu foi o recheio. De fato, muitas mulheres “perfeitas”, mas no mesmo espaço, disputando de igual para igual com as magrinhas, muitos shortinhos com abundância em volume. Surpresa. Contudo achei melhor não me animar.

De acordo que adentrava na Baixada Fluminense, os shorts encolhiam e os bumbuns pulavam sem pudor. Grandes ou pequenos. Lisos ou com celulites. Em plena democracia.

E o mais impressionante: Elas não se importavam.

Dias passavam e eu continuava a me surpreender.

Então tive uma revelação:

SAMSUNG CAMERA PICTURES

04/02/2015

Local: Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor

Quadra da Beija-Flor de Nilópolis.

Um calor que Deus dava.

Mais de 3mil pessoas do lado de fora. Som alto. Sem falar na bateria nota 10.

Me aventurei.

Parecia que entrava num mundo novo. Nunca vi tanta gente ocupando tão pouco espaço.

E acredite, a quadra não é pequena.

Nada tem a ver com a lei da física – dois corposno caso, mais do que dois – jamais ocuparam o mesmo espaço.

Estava em total estado de graça por conta das roupas. Explico.

Barriguinha de fora? Quem disse que eu não posso?

Short só pra magrinha? Onde está escrito isso?

Celulite? Quem não?

Finalmente entendi Clarice Lispector.

“E se me achar esquisita,

respeite também.

até eu fui obrigada a me respeitar.”

E eu me aceitei.

Uma chuva de amor próprio caiu sobre mim. Gotas de orgulho banharam meu corpo gordinho. Encharcaram minha alma encucada. E eu me joguei.

Os furos das minhas coxas não sumiram.

Minhas bordinhas de catupiry continuaram a balançar.

Todavia, eu me amei. E me amo cada vez mais.

Ficar refém de calça comprida e manga longa? Nunca mais.

Todas aquelas moças majestosas me passaram na cara a realidade.

Perfeita jamais serei. porém é obrigação minha – e de mais ninguém – amar cada ponto imperfeito de mim. Afinal, essa sou eu. E eu me coloco em primeiro lugar.

Barriguinhas cheias de dobras me convenceram que eu não preciso de gominhos para ser feliz.

Dancei. Curti. Me descobri apenas mulher. Não uma psicótica por cada grama a mais na balança.

Ainda vou entrar na academia.

Em prol da minha saúde.

Não por conta de qualquer ditadura chinfrim da sociedade que nos obriga a usar um manequim 36, enquanto a maioria das que usam 44 são mais felizes. Vide as integrantes maravilhosas da minha Escola do coração;

Resumindo.

Dane-se a vergonha.

Viva a celulite.

Amém!

Inspire-se: https://www.youtube.com/watch?v=9ETNolkRyuQ